No contexto do VCQB, sair do veículo pelo mesmo lado da ameaça representa um alto risco tático e operacional. Essa ação compromete a proteção individual e coletiva da equipe, pois expõe o operador diretamente ao fogo inimigo ou à linha de ameaça sem qualquer cobertura imediata.
A estrutura do veículo deve ser usada como barreira balística temporária. Ao sair pelo lado oposto, o policial utiliza o veículo como escudo improvisado, aumentando significativamente as chances de sobrevivência e capacidade de reação. Além disso, a movimentação para o lado contrário permite posicionamento estratégico, organização da equipe e domínio de ângulos, elementos essenciais no combate aproximado.
Portanto, sair do veículo pelo lado da ameaça é uma quebra de princípios básicos de segurança e tática, contrariando os fundamentos do CQB aplicado ao ambiente veicular.
Com relação ao VCQB, não utilizo esse nome em minhas instruções, mas sim "Emboscada e Contra Emboscada em Viatura". Quando afirmo que jamais se deve sair para o lado da ameaça, estou me referindo estritamente aos movimentos tradicionais da técnica original americana.
As outras variáveis que podem ocorrer — como antecipação, elemento surpresa a seu favor, decisão de qual lado sair conforme o momento e outras possibilidades que surgem no caso concreto — são situações que deverão ser avaliadas no instante exato. Apenas a capacidade de percepção, o nível de treinamento e o controle do operador que estará vivendo a situação permitirão fazer a escolha correta.
É importante destacar que toda essa capacidade operacional só será alcançada após anos de treinamento e vivência em situações de estresse. Dessa forma, o cérebro do operador terá o tempo necessário para processar, cogitar e decidir agir no momento exato, garantindo a sua sobrevivência.
As técnicas de combate policial não foram criadas para preparar apenas operadores experientes, mas sim para embasar, por meio de movimentos seguros, os operadores inexperientes, ao mesmo tempo em que oferecem aos mais experientes um referencial de segurança para aprimorar suas habilidades. A estruturação dessas técnicas baseia-se na padronização de movimentos seguros, controlados e de baixa complexidade, justamente para garantir sua assimilação por agentes com diferentes níveis de experiência. Esses movimentos foram desenvolvidos para minimizar riscos, reduzir erros sob estresse e criar uma base sólida para a resposta tática.
Embora tenham sido elaboradas para operadores em formação, tais técnicas mantêm sua relevância para profissionais experientes, pois reforçam fundamentos essenciais, preservam a segurança da equipe e favorecem uma atuação coordenada. A aparente simplicidade não representa limitação, mas sim eficiência operacional, adaptável a diversos contextos e níveis de habilidade.
Atropelar indevidamente a assimilação do conhecimento, permitindo que o aluno acredite ser aceitável evadir-se correndo para o mesmo lado da ameaça — expondo-se e dando-lhe as costas — compromete a integridade da técnica e põe em risco a correta compreensão e aplicação em situações reais.
No caso da técnica de emboscada e contraemboscada em viatura, os movimentos padronizados pela escola americana, especialmente em situações de emboscada lateral — por exemplo, quando o ataque ocorre pelo lado do motorista — determinam que este inicie fogo de proteção e, simultaneamente, adote uma postura de diminuição de silhueta, preparando-se para a saída. Enquanto isso, o carona deve, no menor tempo possível, sair do veículo, posicionar-se na lateral na altura do bloco do motor e assumir o fogo de proteção, batendo na lataria e orientando o motorista a concluir sua saída.
Esses movimentos seguros são padrões construídos com base em estudos de casos reais e amplamente testados. Portanto, no meu entendimento, não há como modificá-los sem fragilizar ou deturpar a técnica. Ao repassarmos esses conhecimentos à tropa, devemos ensiná-los com movimentos corretos e precisos, para que o aluno compreenda a técnica segura e original. Posteriormente, com a soma de suas experiências vivenciais, ele poderá, de acordo com sua habilidade adquirida ao longo do tempo, antecipar-se ou escolher a melhor estratégia.
Portanto, concluímos que a técnica policial deve ser ensinada com seus movimentos originais de criação. Um alerta aos Instrutores, nada de tentar modificar, substituir ou alterar movimentos, por qualquer razão que possa imaginar. Lembre-se que estes movimentos já foram comprovadamente testados e aprovados através de milhares de estudo de casos de sucesso. Antes de tentar modificar o que já teve sua segurança, efiiencia e eficácia cientificamente comprovada, para simplesmente avocar a autoria, lembre-se que o papel do verdadeiro instrutor policial é ensinar a forma correta que trará de volta para casa, o Operador.
Marcos Vinicius S. de Souza – Policial Civil/RS, por 32 anos, Instrutor de Tiro e Técnicas de OESPP.