O ESTRESSE E O POLICIAL TEPT

O ESTRESSE E O POLICIAL  TEPT

O ESTRESSE E O POLICIAL — TEPT

            O estresse relacionado à atividade policial, especialmente aquele decorrente da exposição a eventos críticos, tem sido amplamente estudado pela psiquiatria, psicologia e, mais recentemente, pelas neurociências. Dentre esses quadros, destaca-se o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma condição clínica associada à vivência ou exposição a situações que envolvem ameaça real de morte, violência ou grave lesão.

            Durante muito tempo, tais estudos estiveram concentrados em combatentes de guerra. Entretanto, nas últimas décadas, verificou-se que profissionais da segurança pública apresentam níveis semelhantes — e, em alguns casos, superiores — de exposição a eventos potencialmente traumáticos, como confrontos armados, mortes violentas, acidentes graves, violência doméstica, entre outros.

            O TEPT não deve ser confundido com o estresse comum do cotidiano. Trata-se de uma resposta complexa do organismo a eventos críticos, podendo manifestar-se por meio de sintomas como revivescência do trauma (flashbacks), pesadelos, hipervigilância, irritabilidade, distúrbios do sono, ansiedade, isolamento social e alterações de humor. Além disso, podem ocorrer manifestações físicas, como sudorese, taquicardia e tensão muscular constante.

            Atualmente, a ciência reconhece que, além de eventos isolados de grande impacto, o policial está sujeito a um fenômeno ainda mais relevante: o estresse traumático cumulativo. Diferentemente do trauma único, esse tipo de estresse decorre da exposição repetida e prolongada a situações adversas, muitas vezes de menor intensidade individual, mas que, ao longo do tempo, produzem um desgaste significativo na saúde mental do profissional.

            Essa exposição contínua pode levar a alterações nas quatro dimensões do funcionamento humano: cognitiva, emocional, comportamental e fisiológica.         O policial pode apresentar dificuldade de concentração, tomada de decisão prejudicada, reações emocionais intensificadas ou, em sentido oposto, um processo de dessensibilização afetiva — mecanismo de defesa que reduz a resposta emocional, mas que também pode comprometer relações interpessoais.

            Entre os comportamentos mais observados estão as chamadas condutas de esquiva, caracterizadas pela tentativa de evitar pensamentos, sentimentos ou situações associadas ao trauma. Podem ocorrer ainda perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas, distanciamento emocional, dificuldades afetivas e uma percepção negativa ou abreviada do futuro.

            Outro aspecto relevante é o desenvolvimento da hipervigilância, estado em que o indivíduo permanece constantemente em alerta, mesmo fora do ambiente operacional. Embora funcional em situações de risco, quando mantido de forma contínua pode gerar desgaste físico e mental, contribuindo para quadros de ansiedade crônica e fadiga.

            A atividade policial, por sua natureza, impõe não apenas exposição ao risco físico, mas também intensa pressão psicológica. O profissional vive sob constante avaliação — da sociedade, da instituição, da mídia, da família e de si próprio. Soma-se a isso a necessidade de tomar decisões rápidas e muitas vezes irreversíveis, frequentemente em cenários de incerteza.

            Esse conjunto de fatores pode levar ao desenvolvimento de quadros como ansiedade, depressão, distúrbios do sono e, em alguns casos, ao uso de álcool como estratégia inadequada de enfrentamento. O alcoolismo, nesse contexto, não deve ser visto como falha moral, mas como um possível desdobramento de sofrimento psicológico não tratado.

            Importante destacar que nem todos os policiais expostos a eventos críticos desenvolverão TEPT. A resposta ao trauma é individual e influenciada por fatores como histórico de vida, suporte social, treinamento e estratégias de enfrentamento. Em muitos casos, os sintomas não se manifestam de forma imediata, podendo surgir meses ou até anos após os eventos vivenciados.

            A cultura institucional ainda representa um obstáculo significativo para o enfrentamento dessas questões. O receio de estigmatização, associado à idéia equivocada de que buscar ajuda representa fraqueza, faz com que muitos profissionais não procurem apoio especializado.

            Diante desse cenário, torna-se fundamental a implementação de políticas institucionais voltadas à saúde mental do policial, incluindo programas de prevenção, acompanhamento psicológico e treinamento voltado à gestão do estresse.

            O reconhecimento do impacto psicológico da atividade policial não diminui o profissional — ao contrário, reforça a necessidade de prepará-lo de forma integral. O policial não é apenas um operador técnico, mas um ser humano exposto diariamente a situações que desafiam seus limites emocionais e psicológicos.

            Compreender o estresse, reconhecer seus sinais e buscar formas adequadas de enfrentamento são passos essenciais para a preservação da saúde, da qualidade de vida e da própria capacidade operacional do profissional de segurança pública.

 

Autor: Marcos Vinicius Souza de Souza – Foi Policial Civil/RS (32 anos), Pós-Graduado em Direito Penal/Processo Penal/Segurança nas organizações e Especialista em Segurança Pública e Operações Especiais Policiais. Instrutor de Armamento e Tiro e OESPP.

 



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