OS FUNDAMENTOS COGNITIVOS DA AÇÃO POLICIAL

OS FUNDAMENTOS COGNITIVOS DA AÇÃO POLICIAL

Os Fundamentos Cognitivos da Ação Policial

        Toda resposta policial começa muito antes do primeiro movimento. Antes que o corpo se desloque, antes que a arma seja apresentada e antes mesmo que qualquer técnica seja executada, o cérebro já percebeu, interpretou, analisou e decidiu como responder à situação enfrentada. O movimento é apenas a manifestação física de um processo cognitivo que ocorre em frações de segundo. Compreender esse processo é compreender a verdadeira origem da ação policial.

O Cérebro como Principal Sistema de Armas

        Durante muito tempo, grande parte da formação policial concentrou seus esforços no domínio dos instrumentos utilizados pelo profissional: armas de fogo, equipamentos de proteção, meios de comunicação, instrumentos de menor potencial ofensivo e diferentes técnicas de intervenção.

           Todos esses recursos possuem importância inquestionável.

           Entretanto, nenhum deles atua de maneira autônoma.

      Antes que qualquer equipamento seja empregado ou qualquer técnica seja executada, existe um processo anterior, invisível e decisivo: o operador precisa receber informações, atribuir significado a elas, compreender a situação, escolher uma resposta e comandar sua execução.

          Por essa razão, o cérebro deve ser compreendido como o principal sistema de armas do operador.

         Essa afirmação não diminui a importância das armas, técnicas ou equipamentos. Apenas estabelece uma ordem de precedência.

            Uma arma não identifica ameaças.

            Não distingue uma pessoa inocente de um agressor.

            Não avalia riscos.

            Não interpreta comportamentos.

            Não decide quando pode ou deve ser empregada.

            Não estabelece os limites legais de sua utilização.

            É o operador quem realiza essas tarefas.

            E é o cérebro que torna isso possível.

            Os equipamentos ampliam capacidades.
            As técnicas organizam respostas.
         Mas é a cognição que determina quando, por que e como esses recursos serão empregados.

 A resposta começa antes do movimento

        A resposta policial não começa no saque da arma, no deslocamento, na verbalização ou na aplicação de uma técnica.

           Ela começa quando o profissional recebe as primeiras informações sobre aquilo que está acontecendo.

          Essas informações podem chegar pela visão, audição, percepção corporal, comunicações recebidas, conhecimento prévio da ocorrência, comportamento das pessoas envolvidas ou alterações identificadas no ambiente.

          A partir delas, o cérebro inicia um processo contínuo de seleção, interpretação e organização.

            Alguns estímulos recebem prioridade.

            Outros permanecem momentaneamente em segundo plano.

            Determinados comportamentos são reconhecidos como comuns.

            Outros despertam atenção.

            Experiências anteriores são recuperadas.

            Hipóteses começam a ser construídas.

            É desse processamento que nasce a resposta operacional.

            Quando observamos um policial agindo, enxergamos apenas a manifestação final desse processo.

            Vemos o movimento.

            A verbalização.

            O emprego do equipamento.

            A aplicação da técnica.

            Mas antes da ação física, o operador já precisou, ainda que em frações de segundo:

  •   captar informações → atribuir significado → compreender a situação → avaliar possibilidades → decidir → agir.

            Por isso:

  • Todo movimento operacional é a manifestação física de um processo cognitivo anterior.

            Essa relação é fundamental.

            Um profissional pode executar uma técnica com perfeição mecânica e, ainda assim, produzir um resultado operacional inadequado se tiver compreendido incorretamente a situação ou escolhido uma resposta incompatível com o problema.

            Pode utilizar a técnica correta contra a pessoa errada.

            Pode agir no momento errado.

            Pode empregar um recurso desproporcional ao risco existente.

            Pode continuar executando uma ação mesmo depois de a situação ter mudado.

            A eficiência mecânica, portanto, não corrige uma decisão equivocada.

A técnica depende da decisão

           A técnica não escolhe a si mesma.

       O operador pode conhecer diferentes formas de abordagem, contenção, deslocamento, algemação, emprego da força ou utilização de seus equipamentos. Entretanto, diante de cada ocorrência, precisará identificar qual resposta corresponde às condições existentes naquele momento.

            Por isso, a competência operacional não pode ser medida apenas pela quantidade de técnicas que o profissional consegue reproduzir.

            É necessário avaliar se ele consegue:

                - reconhecer o problema;

                - compreender a situação;

                - selecionar uma resposta compatível;

                - adaptar essa resposta às mudanças do ambiente;

                - e interrompê-la ou modificá-la quando novas informações tornarem isso necessário.

            A técnica é executada pelo corpo, mas é selecionada pela cognição.

            Essa compreensão também modifica a maneira de interpretar a velocidade de resposta.

            Responder rapidamente não significa apenas movimentar o corpo com maior velocidade.

         Quanto mais cedo o operador reconhece uma alteração relevante, maior tende a ser sua margem para compreender o problema, preparar-se e decidir.

            Quanto mais tarde identifica o risco, menor será o tempo disponível para construir sua resposta.

            Assim, um movimento extremamente rápido pode chegar tarde quando o problema foi reconhecido tarde demais.

            Da mesma forma, uma resposta aparentemente simples pode ser extremamente eficiente quando nasce de uma leitura antecipada e adequada da situação.

Experiência, reconhecimento de padrões e hipótese

            A experiência exerce papel importante na construção da resposta operacional.

            Entretanto, tempo de serviço e aprendizagem não são sinônimos.

            Ter vivenciado muitas ocorrências não significa necessariamente ter aprendido com elas.

           A experiência transforma-se em conhecimento quando o profissional analisa aquilo que aconteceu, identifica acertos e erros, compara alternativas, compreende causas e incorpora as lições extraídas ao seu comportamento.

            Sem reflexão, a experiência pode apenas consolidar hábitos.

            E hábitos podem estar certos ou errados.

            O tempo de serviço não valida procedimentos. A compreensão de seus fundamentos permite avaliá-los.

            Quando adequadamente refletidas, treinamento e experiência criam referências cognitivas.

            O cérebro passa a reconhecer determinadas combinações de informações como padrões anteriormente encontrados ou estudados.

            Postura corporal, direcionamento do olhar, posição das mãos, alteração súbita de comportamento, redução de distância ou outros sinais podem, em conjunto, despertar a atenção do operador para determinada possibilidade.

           Isso pode aumentar significativamente a velocidade de compreensão.

            Entretanto, reconhecer um padrão não significa conhecer antecipadamente o que acontecerá.

            O padrão deve produzir uma hipótese, e não uma certeza.

            A hipótese orienta a busca por novas informações.

            Se os novos dados forem coerentes com ela, sua consistência aumenta.

            Se forem incompatíveis, deverá ser modificada ou abandonada.

            A experiência deve acelerar a compreensão, não substituir a análise.

O cérebro também possui limitações

            Compreender o cérebro como principal sistema de armas não significa considerá-lo infalível.

            A atividade policial frequentemente exige decisões em condições de informação incompleta, pressão temporal, fadiga, medo, estresse e elevada quantidade de estímulos.

            Nessas condições, a capacidade cognitiva pode sofrer limitações.

            A atenção pode estreitar-se.

            Informações importantes podem deixar de ser percebidas.

            A interpretação pode ser influenciada por expectativas anteriores.

            O profissional pode procurar apenas aquilo que confirma uma hipótese já construída.

            Por isso, um dos maiores riscos cognitivos é a certeza prematura.

            Quando o operador acredita ter compreendido completamente a situação, pode deixar de procurar informações que contradigam sua interpretação inicial.

            A partir desse momento, deixa de analisar a realidade e passa apenas a tentar confirmá-la.

            A segurança cognitiva não nasce da certeza absoluta.
            Nasce da capacidade de manter a compreensão aberta à atualização.

            Essa ideia será fundamental em todo o Ciclo da Ação Tática.

            A realidade operacional muda.

            Portanto, a compreensão do operador também precisa mudar quando surgem novas informações.

O treinamento também precisa desenvolver a cognição

            Se a resposta policial nasce no cérebro, o treinamento não pode atuar apenas sobre os movimentos.

            É necessário desenvolver também a capacidade de observar, perceber, analisar, decidir e adaptar.

            A repetição técnica possui grande valor.

            Quando determinado movimento é suficientemente aprendido, sua execução exige menos atenção consciente. Isso libera capacidade cognitiva para acompanhar o ambiente, comunicar-se, observar a ameaça e perceber mudanças na situação.

            Mas existe uma diferença fundamental:

                - O movimento pode ser automatizado.

                - A decisão não pode tornar-se cega.

            Uma técnica pode ser treinada até tornar-se rápida, simples e consistente.

            A decisão de empregá-la, entretanto, precisa continuar subordinada à realidade existente naquele instante.

            Treinar apenas execução pode produzir profissionais mecanicamente eficientes, mas cognitivamente limitados.

            Por isso, a preparação policial deve incluir situações que exijam interpretação e decisão: simulações, resolução de problemas, estudos de caso, variação de cenários, análise de ocorrências, exercícios sob pressão e revisão crítica das respostas adotadas.

            O objetivo não é fornecer ao profissional uma resposta pronta para cada possibilidade.

            É desenvolver sua capacidade de construir respostas adequadas quando a realidade não reproduzir exatamente aquilo que foi treinado.

O estudo de caso como treinamento cognitivo

            Os estudos de caso possuem especial importância porque permitem examinar decisões reais ou plausíveis sem estar exposto ao risco original.

            Seu objetivo não é avaliar uma ocorrência com a tranquilidade de quem já conhece o resultado.

            É procurar compreender o que os operadores sabiam no momento em que precisaram decidir.

            Essa distinção é fundamental.

     Uma decisão não deve ser examinada apenas pelas consequências conhecidas posteriormente. Precisa ser analisada a partir das informações razoavelmente disponíveis quando foi tomada.

      Ao mesmo tempo, conhecer o resultado permite identificar informações ignoradas, interpretações inadequadas e alternativas que poderiam ter produzido respostas diferentes.

            Assim:

          - O estudo de caso transforma experiência individual em aprendizagem coletiva.

Estudo de Caso — O mesmo ambiente, respostas diferentes

               Dois policiais chegam a um estabelecimento comercial para verificar uma informação sobre possível desordem.

               Ao se aproximarem, observam um homem junto à entrada. Ele olha repetidamente para o interior do estabelecimento, mantém uma das mãos próxima à cintura e modifica sua posição ao perceber a aproximação da equipe.

               Os dois policiais estão diante do mesmo cenário.

               O primeiro interpreta o comportamento como simples nervosismo provocado pela presença policial e mantém sua aproximação sem modificar significativamente sua postura.

              O segundo considera que os sinais observados podem indicar uma situação que exige maior atenção. Reduz a velocidade da aproximação, acompanha as mãos do indivíduo, comunica-se com seu parceiro e procura obter novas informações.

            Nenhum dos dois possui certeza sobre a existência de uma ameaça.

           A diferença está na forma como cada um seleciona, interpreta e organiza as informações disponíveis.

           Isso não significa que a segunda hipótese esteja necessariamente correta.

            O indivíduo pode estar apenas nervoso.

            Entretanto, o segundo operador construiu uma resposta que lhe permite verificar sua hipótese preservando maior capacidade de adaptação.

Lições Doutrinárias

            Os dois profissionais estavam diante da mesma realidade externa, mas construíram compreensões diferentes a partir dela.

            O treinamento não deve ensinar o policial a perceber ameaça em todo comportamento.

           Deve ensiná-lo a reconhecer informações que merecem atenção, formular hipóteses e mantê-las abertas à confirmação ou à correção.

            A ausência de certeza não impede medidas preventivas proporcionais.

            E uma hipótese inicial nunca deve transformar-se automaticamente em conclusão definitiva.

O cérebro como origem do Ciclo da Ação Tática

            É dessa dinâmica que nasce o Ciclo da Ação Tática – CAT.

            O cérebro:

                - OBSERVA o ambiente.

                - PERCEBE, atribuindo significado às informações.

                - ANALISA, relacionando os elementos disponíveis.

                - Constrói a CONSCIÊNCIA SITUACIONAL.

                - DECIDE qual resposta corresponde à situação.

                - E comanda a AÇÃO.

            A ação modifica o ambiente.

            Novas informações surgem.

            A ameaça pode reagir.

            A equipe pode mudar de posição.

            O resultado produzido precisa ser avaliado.

            O ciclo retorna, então, à Observação.

    - OBSERVAÇÃO → PERCEPÇÃO → ANÁLISE → CONSCIÊNCIA SITUACIONAL → DECISÃO → AÇÃO → NOVA OBSERVAÇÃO

            Por isso, a ação policial não pode ser compreendida como uma sequência rígida de movimentos previamente determinados.

            Ela constitui uma interação contínua entre o operador e uma realidade em permanente transformação.

            O corpo executa.
            Os equipamentos ampliam capacidades.
            As técnicas organizam respostas.
            Mas é o cérebro que integra esses elementos e lhes atribui direção.

            O operador que não compreende corretamente a situação pode utilizar perfeitamente seu equipamento e executar tecnicamente bem um movimento, mas continuará agindo sobre uma realidade que talvez exista apenas em sua própria interpretação.

            É por essa razão que o cérebro deve ser compreendido como o principal sistema de armas do operador.

            É nele que a ação policial verdadeiramente começa.

Autor: Marcos Vinicius Souza de Souza. 

Este Conteúdo faz parte da COLEÇÃO FUNDAMENTOS DA AÇÃO TÁTICA, composto por Três Volumes. Uma obra inédita. Para adquiti-la basta enviar mensagem via o e-mail cursos@ctte.com.br



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